take care of yourself

POSTED ON: 11 de ago de 2010 @ quarta-feira, agosto 11, 2010 | 0 comments

Um dos destaques da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) foi a francesa Sophie Calle, que anda em evidencia por ter tornado publica a carta que recebeu anos atrás do namorado, o escritor Gregoire Bouillier, em que terminava o namoro e se despedia com a expressão ‘te cuida. Sophie Calle faturou em cima desse fora, transformando-o numa exposição e num assunto literário. É curioso que uma expressão tão corriqueira dê tanto pano pra manga. Mas o fato é que dá. Quando adolescentes, saímos de casa pra ir a uma festa ou pegar a estrada e, antes que a porta de atrás de nos se feche, ouvimos a voz deles, pai e mãe: ''Te cuida.''. A recomendação sai no automático: ''Tchau, te cuida.'' Um lembrete amoroso: ''Te cuida, meu filho''. Apesar de tanta a violência urbana, não damos a mínima para esse ''te cuida'' que escutamos desde a primeira excursão do colégio, desde o primeiro banho de piscina na casa de amigos, desde a primeira vez que saímos a pé sozinhos. Pai e mãe são os reis do ''te cuida'', e a gente mal registra, tão acostumada está com esse casal que não faz outra coisa a não ser querer nosso bem e nos amar pra todo o sempre, amém. No entanto, lembro da primeira vez em que estava apaixonada, me despedindo dentro do carro, aos beijos com aquele que deverias ser um moleque, mas pra mim parecia um homem feito. Depois do ultimo beijo, abri a porta do carro e, antes de sair, ouvi a voz dele, grave e sedutora, me dizendo: ''Te cuida''. Me cuidarei, pode deixar. Me cuidarei para estar inteira amanhã de novo, para te ver de novo, te beijar de novo. Me cuidarei para me tocares com suavidade, para nunca encontrares um arranhão sobre a minha pele. E cuidarei do meu humor, dos meus cabelos, cuidarei para não perder a hora, cuidarei para não me apaixonar por outro, cuidarei para não te esquecer, vou me cuidar. Me cuidarei ao atravessar a rua, me cuidarei para não pegar um resfriado, me cuidarei para não ficar doente. Me cuidarei, meu amor, enquanto estiver longe dos teus olhos, nos momentos em que você não poderá cuidar de mim. Fica a meu encargo voltar pra você do mesmo jeito que você me deixou, ilesa. É de minha responsabilidade não ficar triste, não deixar ninguém me magoar, não deixar que nada de ruim me aconteça porque você me adora e não agüentaria. Claro que me cuido, nem precisava pedir. ''Te cuida'', dissera ele. E eu ouvi como se fosse um ''te amo''. Meses depois, terminamos o namoro sem beijo de despedida. Saí do carro prendendo o choro, ainda que o rompimento tivesse sido resolvido de comum acordo. Já estava com meio corpo pra fora do carro, quase fechando a porta, quando ouvi, sem nenhuma aflição por mim, sem nenhuma emoção na voz, um gélido ''te cuida''. Me cuidei. Só chorei quando já estava no elevador. Martha Medeiros

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