Sons que confortam...

POSTED ON: 27 de jul de 2010 @ terça-feira, julho 27, 2010 | 0 comments

''Eram quatro horas da manhã quando seu pai sofreu um colapso cardíaco. Só estavam os três em casa: o pai, a mãe e ele, um garoto de 12 anos. Chamaram o médico da família. E aguardaram. E aguardaram. E aguardaram. Até que o garoto escutou um barulho lá fora. É ele quem conta, hoje, adulto: ‘’Nunca na vida ouvirá um som mais lindo, mais calmante, do que os pneus daquele carro amassando as folhos de outono empilhadas junto ao meio-fio’’ Inesquecível, para o menino foi ouvir o som do carro se aproximando, o homem que salvaria o seu pai. Na mesma hora em que li esse relato imaginei um sem-números de sons que nos confortam A começar pelo choro na sala de parto. Seu filho nasceu. E o mais aliviante para pais que possuem adolescentes baladeiros: o barulho da chave abrindo a fechadura da porta. Seu filho voltou. E pode parecer mórbido para uns, masoquismo para outros, mas há quem mate a saudade assim: ouvindo pela enésima vez o recado deixado na secretária eletrônica de alguém que já morreu. Deixando a categoria dos sons magnâmicos para a dos sons cotidianos: a voz no alto falando do aeroporto dizendo que a aeronave já se encontra em solo, e o embarque será feito em poucos minutos. O sinal, dentro do teatro, avisando que as luzes serão apagadas e o espetáculo irá começar. O telefone tocando exatamente no horário que se espera, conforme o combinado. Até a musiquinha que antecede a chamada a cobrar pode ser bem-vinda, se for grande a ansiedade para se falar com alguém distante. O barulho da chuva forte no meio da madrugada, quando você está no quentinho da sua cama. Uma conversa em outro idioma na mesa ao lado da sua, provocando a falsa sensação de que você está viajando de férias em algum lugar estrangeiro. E estando em algum lugar estrangeiro, ouvir o seu idioma natal sendo falado por alguém que passou, fazendo você lembrar que o mundo não é tão vaso assim. O toque do interfone quando se aguarda ansiosamente a chegada do namorado. Ou mesmo a chegada da pizza. O aviso sonoro que chegou um torpedo no celular. A sirene na fabrica anunciando o fim de mais um dia de trabalho. O sinal do recreio. A musica que você mais gosta tocando no radio do carro. Aumente o volume. O aplauso depois que você, nervoso, falou em público para dezena de desconhecidos. O primeiro eu te amo dito por quem você também começou a amar. E em tempos de irritantes vuvuzelas, o som mais raro de todos, o silencio absoluto.'' (Martha Medeiros)

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ニャー